Eleições
A verdade é que esse monte de eleição que tivemos nesses últimos meses me deixou com a sensação de que o mundo está realmente mais perto do fim. Do contrário como seria possível explicar a vitória do Serra em São Paulo; do César Maia, no Rio; do Fogaça, em Porto Alegre e, at least but not the last (por último, mas não menos importante), a do Bush na província evangélica dos EUA.
Tudo bem, sei que cada lugar comporta particularidades acumuladas de uma trajetória traçada nos últimos anos. São Paulo, por exemplo, tinha como candidatos o nefando e nefasto Maluf-velho-de-guerra, o Vampiro-anêmico-José-Serra, a "tudo a ver"(como insiste em dizer um pseudo-jornalista da Zero Hora) Marta Suplicy, a Erundina e outras figuras de menor expressão. Pleito difícil. Marta fragilizada por uma imagem pública de burguesa mãe dos pobres, não conseguiu convencer a população (que parece ter dado 4 anos de governo como favor à esquerda) de que faria neste mandato o que mal conseguiu começar nos últimos dois pares de ano. Deu Serra, aquele que como ministro da saúde teve a sensibilidade de perceber que as "pessoas passavam por sérios problemas de visào". Paladino do combate à catarata. Foi ele quem combateu a epidemia desta vil doença que se anunciava aos olhos de nossos pobres velhinos.
Já o Rio de Janeiro me reservou uma certa surpresa. Até por estar longe e não acompanhar a "energia"eleitoral da cidade. Como é que pode a esquerda - que sempre teve, se não a maioria, boa parte do elitorado - fechar as eleições com um desempenho tão medíocre?Tá certo que o Bittar é tão popular no Rio como a rainha Elisabeth é no Sudão, mas daí a nem figurar entre os principais candidatos...
É verdade que os cariocas ficaram encuralados no corredor polonês do escrutínio: de um lado o sabe-se-lá Marcelo Crivela, que boa coisa não deve ser, e, do outro, o já conhecido Kaiser, ou como se diz na realidade pós-latina: César. Mas tudo bem, dos males esse foi, realmente, o menor. A coisa fluminense degringolou mesmo há dois anos. Época em que me mudei. Coincidência???? hehehehe
Mas aqui em Porto Alegre tudo já estava meio que anunciado. O PT vinha de 16 anos ininterruptos de administração municipal. Pisou na bola em alguns quesitos no governo estadual e no municipal. O Tarso, esse que é ministro hoje, saiu da prefeitura no meio do mandato para concorrer ao governo. Durante a campanha ficou trocando toda sorte de agressões com o ex governador Britto e perdeu a eleição prum colono (pessoal do interior do RS) chamado Germano Rigotto, que no início das pesquisas eleitorais tinha apenas 2 por cento das intenções de voto. Mesmo com uma administraçào louvável (se comparada a outras metrópoles), a populaçào da cidade já dava sinais de um certo desgaste com o partido. Nào deu outra: o senador Fogaça se elegeu com pouco mais da metade dos votos válidos. Esse aí é outro caso sério: senador também há 16 anos, dizem que a unica coisa boa que fez foi Vento Negro (cançào que integra o seleto repertório gaúcho). Parece só ter mesmo participado ativamente da vida política do senado exercendo a função de professor de Português, reparando e reprimindo a sintática e a semântica dos projetos. Coisa que não o atrapalhou na apresentação de 8 projetos ao longo de 16 anos. Uma marca realmente "incrível". Fora tudo isso, o cara é amigo do ACM.
É, o resultado já não era muito animador. Pra piorar 54milhões de sei-lá- o que-que-aquela gente-é lá nos EUA resolvem votar no pastor-bélico-Bush. E o pior é que grande parte dos eleitores levou em conta coisas como proibição do casamento gay, aborto e coisas do gênero. Uma das poucas mentes que pensam lá naquele condado disse o seguinte: "Se o Kerry tivesse mostrado um feto morto por uma bomba no Iraque, talvez ganhasse a eleição. " É,faz sentido.
Mas esse fim do mundo que pressenti no início do texto é algo figurado, só tentei aproximar num campo semântico Serra, César, Bush e Fogaça. É injustiça, eu sei, mas é só uma forma de mostrar que dentro de uma certa ideologia política os resultados dessas eleições foram catastróficos. Pelo menos a Luziane ganhou em Fortaleza.
Incomformado como eu,o documentarista Michel Moore comentou em seu site ( www.michaelmoore.com) os resultados das eleições que deram ao presidente dos EUA o segundo mandato. Com o humor ácido de sempre, Moore citou "17 motivos para não cortar os pulsos". são eles:
1- É contra a lei Bush concorrer a nova reeleição a presidente.
2 - A vitória de Bush foi a mais estreita para um presidente buscando a reeleição desde Woodrow Wilson em 1916.
3 - A única faixa etária na qual a maioria votou em Kerry foi a dos adultos jovens (Kerry: 54%, Bush: 44%), provando mais uma vez que seus pais estavam sempre errados e você nunca deveria ter dado ouvidos a eles.
4 - Apesar da vitória de Bush, a maioria dos americanos ainda pensa que o país está indo na direção errada (56%), pensam que a guerra não valeu a pena (51%) e não aprovam o trabalho que George W. Bush está fazendo (52%). (Nota a estrangeiros: Não tentem compreender isto, é uma coisa americana)
5 - Os republicanos não terão uma maioria de 60 cadeiras no Senado (o que daria a eles direito de retirar obstáculos e manobras da oposição). Se os democratas fizerem seu trabalho, Bush não será capaz de dominar a Suprema Corte com ideologias de extrema-direita. Eu disse "se os democratas fizerem seu trabalho"? Hum, talvez seja melhor apagar isso.
6 - Michigan votou em Kerry! Como todo o Nordeste, onde nasceu nossa democracia. O mesmo aconteceu com seis dos oito estados dos Grandes Lagos. E toda a Costa Oeste. Mais o Havaí. Ok, isso é um começo. Nós temos a maior parte da água potável, toda a Broadway e o Monte Santa Helena. Podemos secá-los ou enterrá-los em lava. E nunca mais musicais!
7- Outra vez somos lembrados de que buckeye (castanheiro nativo de Ohio) é uma noz, e não apenas uma noz qualquer - uma noz venenosa. Uma grande nação foi derrubada por uma noz venenosa.
8 - Oitenta e oito por cento do apoio de Bush veio de eleitores brancos. Em 50 anos, os EUA não terão mais maioria branca. Ei, cinqüenta anos não é muito tempo! Se você tem 10 anos e está lendo isto, seus anos dourados serão realmente dourados e você será bem cuidado na terceira idade.
9 - Gays, graças às medidas aprovadas na terça-feira, não poderão se casar em 11 estados. Graças a Deus. Apenas pensem em todos aqueles presentes de casamento que vocês não terão que comprar agora.
10 - Cinco outros afro-americanos foram eleitos membros do Congresso, incluindo o retorno de Cynthia McKinney, da Geórgia. É sempre bom termos mais negros lá lutando por nós e fazendo o trabalho que nossos candidatos não podem fazer.
11 - O CEO da Coors (gigante do mercado de bebidas) foi derrotado para o Senado pelo Colorado. Um brinde!
12 - Admitam isso: Gostamos das gêmeas Bush e não queremos que elas se vão.
13 - No nível legislativo estadual, os democratas conquistaram ao menos três câmaras nas eleições de terça-feira. Das 98 câmaras legislativas estaduais (assembléias e senados) controladas pelo bipartidarismo, os democratas foram para as eleições de 2004 no controle de 44 câmaras, com os republicanos controlando 53 e uma câmara dividida. Depois de terça-feira, os democratas agora controlam 47 câmaras, os republicanos têm 49, uma está dividida e outra (Assembléia de Montana) ainda aguarda definição.
14 - Bush é agora um presidente indefeso. Ele não terá qualquer grande momento além do que ele está tendo esta semana. É uma queda para ele daqui por diante e, mais significativamente, ele não vai querer fazer todo o trabalho duro que espera-se dele. Será como é com toda pessoa um mês antes de completar a 12ª série - você quase completou isso, então é hora da festa! Talvez ele vá tratar os próximos quatro anos como uma permanente sexta-feira, passando cada vez mais tempo no rancho e em Kennebunkport. E por que ele não deveria? Ele já provou seu ponto de vista, vingou seu pai e chutou nosso traseiro.
15 - Se Bush decidir aparecer no trabalho e levar seu país por uma estrada muito escura, duas situações devem ocorrer: a) Agora que ele nem precisa aproveitar-se dos cristãos conservadores para ser eleito, alguém pode sussurrar em seu ouvido que ele deve passar esses quatro anos construindo um "legado", para que a História dê um veredito mais gentil a ele e para que ele não ponha em prática uma agenda de direita muito agressiva; b) Ele vai se tornar tão vaidoso e arrogante e, por conseqüência, sem medidas, que vai cometer uma tolice tão grande que até mesmo seu próprio partido vai ter que tirá-lo do gabinete.
16 - Há cerca de 300 milhões de americanos - 200 milhões deles em idade de votar. Nós perdemos por apenas 3,5 milhões de votos. Isto não é uma grande marca - significa que estamos quase lá. Imagine se perdêssemos por 20 milhões. Se você tivesse 58 jardas para atingir a linha do gol e fosse derrubado na marca de 55 jardas, você pararia na linha de três jardas, pegaria a bola e iria para casa chorar - especialmente quando você tem que começar a próxima corrida na linha de três jardas? Claro que não! Tenha esperança. Mais analogias com o esporte estão vindo!!!
17 - Finalmente e mais importante, mais de 55 milhões de americanos votram no candidato classificado como o "liberal número um no Senado". Isso é mais do que o total de eleitores que votaram tanto em Reagan, Bush I (pai do atual presidente), Clinto ou Gore. Novamente: mais pessoas votaram em Kerry do que em Reagan. Se a mídia está procurando uma marca ela deveria ser esta: muitos americanos estavam, pela primeira vez desde Kennedy, desejosos em votar em um liberal de ponta a ponta. O país sempre foi tomado por evangélicos - isto não é novidade. O que é novidade é que tantas pessoas tenham guinado na direção de um liberal de Massachusetts. De fato, esta é uma grande notícia. Isso significa: não espere que a grande mídia, a única que trouxe para vocês a guerrna no Iraque, relate a verdade real sobre o 2 de novembro de 2004. De fato, é melhor que eles não façam. Vamos precisar de um elemento-surpresa em 2008.

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